9.12.09
Tenho dois horários em mente: 4 e 21 da manhã quando a mãe de Camila me disse que estava com ela e 13:07 da tarde quando Camila me disse que estava viva. Tudo bem, tudo bem. Nada caiu de fato exceto a areia na ampulheta que continua desregrada e rápida. Obrigada, meu bem, por ter ficado.
5.12.09
dentre as cartas que mandei
minha garganta tá inflamada. fumo demais, durmo pouco. aliás, nem me lembro das horas-minutos-segundos de sono, a única lembrança que tenho é sobre acordar. acordo, o tempo todo estou acordando e desejando um sono bem fundo, poético até, desses que trazem paz, sonho, pesadelo, descanso. minha memória virou uma seleção de acordares: acordei e permaneço acordada. me lembro de acordar as 5 da manha, de acordar num suspiro alto, de acordar, de. não me lembro se dormi, mas tenho consciência de que estou acordada, tenho consciência do meu ato de acordar. pedro disse que dia ou outro a gente deixa de ser uma dessas pessoas que vivem andando pelas estrelas - acordar deve ser mais ou menos isso. descobri hoje, acordada, que minha fome não tem consistência, cor. mas minha fome tem cheiro - cheiro de carolina. minha fome tem o cheiro do meu armário do banheiro - que também cheira carolina. minha fome é um frasco de carolina de vidro com detalhes vermelhos vazio, na pele dela. minha fome é o cheiro de carolina na pele dela. minha fome é líquida, cara, distante, interior. minha fome é piegas. minha fome não supre o estômago, mas o coração. não tenho como matar minha fome hoje. por vezes abro o armário do banheiro, cheiro, cheiro, mas não há pele, há um frasco de carolina de vidro com detalhes vermelhos vazio e nada mais. minha fome perdura por dias. e eu? eu to topando qualquer coisa que tenha alcóol. sim, porque o alcóol engana essa fome, o alcóol engana esse acordar constante que não me sai na cabeça. a dois quarteirões daqui, sempre que caminho, vejo um senhor sentado na esquina. exatamente a dois quarteirões daqui, diariamente, ele está ali. tem dificuldade pra e locomover, usa aqueles andadores, sabe? as vezes ele está sentado, as vezes anda em círculos sempre no final do segundo quarteirão. as vezes ele me sorri. acho que ninguem o ve ali. quer dizer, esses dias passei e tinha uma menininha de 4 ou 5 anos conversando com ele, sabe-se lá o que. hoje ele estava lendo um jornal antigo. do seu lado sempre um mini carrinho com algumas coisas como cobertor, papelão. mas dá pra ver que ele não é um mendigo. ele só está ali, esquecido, ele só. reparo muito nele, ja pensei em puxar algum assunto, mas nao sei se ele gostaria de conversar. na real eu queria tirar ele daquele final do segundo quarteirão, aquele espaço mínimo ignorado. na real eu queria que ele nao fosse ignorado. na real eu queria nao ser ignorada. na real eu queria nao ser. talvez eu acabe no final do terceiro ou do quarto quarteirão. pessoas passando pra lá e pra cá o dia todo, eu tentando andar, eu tentando ser notada. no viaduto, hoje, um cara entre as duas pistas. parecia que ia se atirar na frente de um carro, fiquei observando de longe. pensamentos absurdos rodando como sair correndo descalça descer os seis andares de escada e berrar pra ele nao fazer isso ou segurá-lo por trás, mas eu, inultimente, observei. ele ficou ali, andando pra frente, pra trás, ameaçando. os carros passando, ignorando. a vida fluindo na ignorância, são paulo fluindo na não-identidade. de repente, o cara atravessou. ele só tava esperando passarem menos carros pra chegar do outro lado. nem todo mundo é suicida, porra, eu é que sou louca. talvez ele se mate um dia, nem vou ficar sabendo. talvez eu me mate um dia, ele nem vai ficar sabendo. talvez o senhor do final do segundo quarteirão sorria pra mim novamente, talvez eu fale com ele segunda, terça. talvez talvez talvez, caralho, eu já ouvi tanto sobre meu exagero, minhas fugas e sim, eu to topando qualquer coisa que tiver alcóol, porque chega de ouvir sobre meus exageros e minhas fugas, eu quero exagerar e fugir e não ficar ouvindo sobre isso porque eu sou muito além de uma porta batendo na cara de alguém e eu indo pro boteco, eu sou muito além dessa depressão doente que me chuta o rosto. tanta gente dizendo tanta gente me xingando tanta gente se cansando de mim. eu, eu é que me cansei. escrevo sobre o cansaço sozinha no apartamento, sozinha, certo? como você me deixou. eu era teu anjo, você era meu porto, agora pra você não há nada, além de eu saindo pela porta pra ' fazer tudo de novo '. e faço, e vou fazer, e ja ja to indo encher a porra da minha cara sim, porque eu mereço, cara. eu mereço porque sinto fome, eu mereço porque sinto, eu mereço porque eu mereço eu mereço porque quero beber pelo senhor do final do segundo quarteirão e pelo cara que nem ia se matar nem nada eu mereço eu mereço porque eu estou sozinha aqui, você tem algo que te supre, eu também. você tem no teto coisas que apanham sonhos, eu tenho no peito vontade súbita de recuperar meus sonhos o mais rápido possível antes que não sobre nada além da vodka na geladeira que pensei em virar depois de te ler. meu deus, como ela chegou nessa ponto? você deve se perguntar, você se pergunta. todos meus pedaços patéticos me fizeram chegar aqui no centro sujo: as palavras na parede, a (s) doença (s), as vontades, os tesões, as cidades, a genética. eu sou um conjunto patético desordenado, daí você vem, me quebra, e vai ficar com que pedaço? pode escolher, eu deixo, mesmo sem saber direito o que você quer de mim. me arrependi tanto por ser eu mesma, o pior arrependimento que há. mas não quero entrar nessa ciranda de merda que quer trabalhar casar ter filhos formar e ser feliz. eu acredito nos meus momentos bons e ruins, minha essência é de ambos. então levanto vou até ao banheiro abro o armário sinto o cheiro do frasco de carolina de vidro com detalhes vermelhos puxo o cheiro bem bem bem dentro numa respiração forte e sinto: a única coisa que resta em mim é ela e esse cheiro na pele dela e a minha pele na pele dela e o meu cheiro com o cheiro dela e ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela eu. porque, querida, eu estou à flor da pele há vinte anos e nesse sábado sinto que nunca estive tanto e porque ela escreveu que vive pelo que eu sou. e eu sou - porque quando eu quebro, ela me agarra com o corpo todo e então eu sou novamente. ela nao tem medo de mim e ela faz a todo momento um detalhe que você esqueceu há meses: me vê. amor é isso, vê? vê?
3.12.09
amor genuíno
Meu bem, tento acalmar a dor com um cigarro que fumo desgostosamente, visto que meu estômago parece estar corroendo numa gastrite nervosa ansiosa medrosa. Cheguei em casa e não troquei nada de lugar. Nenhuma toalha, nenhuma caixa, nenhuma mala. Tudo como nós deixamos antes de você ir. Sei que nem de longe nos desencontramos, mas por deus, não me peça pra não te deixar ir, não posso insistir nessa anestesia a longo prazo e te pedir pra ficar. Só um sussurro: Vem, fica, mora, vive comigo. Deve ter algum filme passando pra gente assistir, alguma luz lindíssima na Avenida Paulista esperando por nós, algum canto pra gente se esconder. Vem, esquece, larga isso aí que te faz mal e deita em cima de mim pra gente trocar palavras, fluidos, almas. É só um sussurro. Não posso pedir isso em voz alta, porque machuca, porque há a espera, a vida escorrendo por lados contrários. Te deixo escolher o almoço, te compro um café com leite, te trago bem perto na hora de dormir. Me acorda na tua insônia e me diz, enquanto estou deitada e você sentada com um copo de cerveja, que você é louca por mim, que te faço bem, que só sampa é real e que o resto é mentira, invenção, vida forçada que não nos leva a porra nenhuma. Você vai me esquecer? Não, vou te esperar. Te esperar com a camiseta dos beatles, te esperar com um livro que estou escrevendo pra você, te esperar porque aqui você sorri, porque sou teu escape, teu amor, porque você e eu numa mesa de bar fica tão bonito e embriagado e sincero. Vem cá, com roupa ou sem, ou eu tiro, ou você, mas o coração, o coração eu quero rasgado, despido, arrebentado que nem os botões da minha camisa de ontem. Eu conheço cada veia tua, cada poro teu. Eu conheço cada um dos nossos duzentos e poucos dias. Sei do teu martini, sei do que te apavora, sei do teu prazer. E eram dez e cinquenta e cinco quando eu quis parar o tempo com você deitada no meu colo e eu passando as mãos no teu rosto e onze horas e alguns minutos quando eu quis chorar desmedidamente, entrar naqueles ônibus e segurar forte teu ombro e falar: fica, cara, fica de uma vez. É só um sussurro. Sou eu e nada mais nessa casa de um cômodo, nessa cama de casal, o cinzeiro virado no chão, as roupas reviradas também no chão. Bagunça demais, amor demais. O amor é uma puta bagunça, né? E insistimos em não organizar, em não arrumar nada. E repetimos cansavelmente: felicidade, sem aspas. E sussurro cansavelmente: fica, fica de uma vez. 14.11.09
descompasso
abri um rascunho de um conto qualquer mas queria um bloco em branco, quer dizer o conto nao era tão qualquer assim, mas também não tão importante assim, aliás, não é sobre isso que quero falar mas não sei ao certo o que falar eu nunca tive muito o que dizer e acabei de inventar a maior mentira que já disse talvez na vida toda, ou talvez só nos ultimos minutos mesmo, a gente tem essa mania de exagerar às vezes né? ou sempre. aonde é que eu to querendo chegar? ah, claro, uma crise existencial, mais uma e mais outra e outra ali esquecida em um canto e to vendo uma ali querendo fugir mas não conseguindo e batendo contra a porta vezes seguidas e a verdade, porque já chega de mentiras e invenções e essa coisa ilusória de achar que tenho um lugar pra chegar e achando que sei a resposta só-porque-me-pergunto. a verdade é que tenho muito muito muito e antes de terminar essa frase fico pensando o que diabos tenho muito enquanto olho por cima do computador minhas unhas dos pés com o esmalte já descascando e meu dedos cruzados uns nos outros e a tremedeira toda nos pés que já me disseram ser loucapsicológicanervosacerebral mania mania como essa mania de achar que a verdade é que tenho muito. menti de novo, a mania é de achar que tenho muito muito muito, os outros é que tem muito, ou nem tem, ou tem, eu sei lá dos outros, talvez eu até queira saber dos outros mas hoje eu sei que os outros não querem saber de como tenho muito muito muito e de como a minha vontade é a de chorar até dormir, sabe, quando os olhos já cansam demais e a dor de cabeça até já passou e o delineador manchou os pijamas e o cérebro num descaso temporário para consigo por conta das latinhas e do choro insistente e. tenho muito muito (muito) quando percebo que a aproximação de qualquer pessoa me faz desabar como se qualquer um que passasse na rua e perguntasse numa preocupação banal se estou bem me despertasse então esse muito muito muito muito que tenho e eu mexesse as mãos sem parar e emudecesse. talvez eu não saiba então lidar com as palavras quando ela saem da minha boca, mas pelos meus dedos, ouvindo o barulho da tecla e da boca só o ar com cheiro - e gosto - de álcool e é esse mesmo ar alcoólico que puxo e solto com a mesma vontade que tenho de tirar o sutiã pra ir dormir - vã, vaga, ridícula, preguiçosa. respiro com preguiça - até parece um contoheróico de alguém que tem grandes feitos (quando não passo de uma anti heroína dessas bem vagabundas que dá pra encontrar em qualquer boteco de qualquer esquina paulista) ou um drama bem baratinho desses que o cinema diz que ' não rolaram muitos investimentos ' ou ' sem recursos ' e que consideram legalzinho por valer a intenção ou por ter uma frase aqui outra ali que valha a pena. me sinto assim, acho que em frase ou outra meio que valho meio que quase valho e reconheço. tal como reconheço como é patético o modo como me sustento com o bonito antigo, o bonito já dito, o bonito já feito, embora reconheça também que critico o constante passado perturbador alheio que comentam comigo que se enfiaram e eu aqui me sustentando eu aqui me apoiando e eu ridicularizando meu próprio eu nesse confessar disparado e rápido e lento. me alcanço sem muito esforço e minto de novo porque preciso sim de muito esforço pra me alcançar e prossigo no processo de reconhecimento quando confirmo pra mim mesma que o esforço maior vem dos que tentam me alcançar, ou nem tentam, ou tentam, eu sei lá. balanço a cabeça fortemente pra evitar ouvir qualquer tipo de voz, se me chamassem agora pra um bar uma casa uma piscina um uísque um filme um carinho um conforto um colo uma vodka eu não iria aceitar. você sabe, meu bem, que te gosto tanto tanto e não tem nada a ver com egoísmo. mas te vejo desgastada, apoiada nas minhas costas e enredando os braços em mim numa dúvida, numa estranheza-tão-não-habitual-de-nós. meu bem, não pretendo te empurrar num impulso forte e impensado pro peso que eu sou, porque creio - e temo - que você não aguente. ontem te vi dormir enquanto as mãos cansadas estavam nos meus braços e enquanto eu continuava gritando madrugada adentro e aí umas 7 da manhã meus olhos já não abriam, estavam inchados e ardidos e adormeci num sono muito desesperador. existem limitações, meu bem, limitações humanas que te impedem de aguentar tudo que eu sou, de ir alcançando todas as minhas extremidades e se não me libero, se olho pras paredes e pro teto ao invés de te encarar é porque te gosto tanto tanto e não quero que você veja naquele corpo deitado gritante encolhido dolorido a paz que te prometi e não possuo, a fé que te concedi quando ja a tinha perdido, as insistência na vida que ignoro quando se trata de mim. eu sou a culpada então, a culpada a mentirosa a desistente, mas você não é. te ouvi lá de cima no escuro conversando, continuando, e meu bem, parece que demos um jeito né? parece que te vejo mais forte, mais lúcida, parece que mais ainda te gosto tanto tanto. meu bem, eu sou aqueles livros já escritos já lidos odiados e deixados de lado em qualquer sebo e sempre passando de sebo pra sebo e ninguém me compra, ninguém mais me lê, aquele livrinho pequeno de capa marrom e folhas amarelas-caindo-dissolvendo-nas-mãos e um dia me jogaram na rua, não dou lucro, não valho inteira como já disse meio que valho meio que quase valho e reconheço. você estava andando e sua paixão por palavras te fez ver o livrinho pequeno marrom com folhas amarelas-caindo-dissolvendo-nas-mãos e não havia dedicatória, agradecimento, número de páginas, era mais um rascunho, um rabisco, um quaselivrovelhomarromcomastaisfolhas. e se te peço pra me devolver em qualquer livraria maisoumenos ou num buraco, porque sou pequena e caibo, é porque o final é repleto de folhas esbranquiçadas amareladas sem nada escrito e porque só valho frase ou outra e você gosta de livros com muitas frases para grifar e reler reler reler. eu quero voltar pros sebos e ser jogada de um pro outro, naquele fluxo nauseante de antes e embora pequena peso peso peso peso peso peso e vejo nas tuas pernas ossos fracos demais e vejo nos teus olhos um castanho incomum e bonito que voltou a brilhar vezenquando e vejo nas tuas costas e no teu coração doenças raras e incontáveis demais para que você aguente a minha alma. eu peso, eu te carrego, mas há desgaste suficiente para que eu me entregue mais e te estrague mais. eu sou tudo que você tem certeza e mais, muito muito muito, um muito que me fez rezar uma oração instantânea, a única que me veio a cabeça deus deus por favor faz parar de bater, ninguém vai saber, rápido, sem doer, quietinha aqui enquanto o corpo grita o dentro cala faz calar deus faz parar de bater deus, entende agora? esse muito vai me fazer parar, mas eu não quero e nem posso deixar que você pare também. o meu coração o meu coração o meu coração o meu coração que não parou você não vai suportar.
4.11.09
Gosto quando na madrugada você me pede para não esquecer das flores e eu repito insistentemente que não combinamos com essa tristeza toda.
3.11.09
2.11.09
meus sonhos são uma piada de mal gosto
1.11.09
30.10.09
não gosto mais de escrever a caneta, meu pensamento corre mais rápido que meus dedos e as letras ficam parecendo listras na folha. minhas mãos estão tremendo, roí algumas unhas não sei pra que, não sei o porquê. minha agonia me dá vontade de enfiar minhas unhas roídas - e agora mais ásperas - nas minhas costas até arrancar a palavra de lá. até sangrar muito porque estão saindo pedaços de pele e é impossível não sangrar e até eu ver a tinta preta misturada com o vermelho do sangue e a minha cor meio morena meio branca pouco me importa, eu não quero saber a cor exata da minha pele. eu quero que esse avião caia. não. eu acabo de me arrepender do que disse, não quero isso, por favor não, mas quis há um segundo atrás eu quis, escrevi e quis. eu nada entendo sobre equilíbrio, somos eu e a escrita apenas e eu querendo tirar ela de mim violentamente, enfiando a unha, ou o dente se eu pudesse, se eu pudesse talvez pedir pra alguém morder minha pele abaixo da nuca e arrancar a palavra de lá, depois tiramos e limpamos da boca as cores que vão se misturar, prometo. ninguém? quer dizer, alguém? ninguém, alguém, dá na mesma. somos eu e a escrita juntas nós formamos esse '' somos '' juntas somos somamos amamos MAS EU QUERO VOCÊ FORA DAQUI sai sai sai sai porta aberta pele no chão coração estilhaçado só pra você sair sai sai sai sai. mas se você sair então já não sou já não somo já não amo. você deve rir de mim, não, você deve chorar comigo, chorar por ter se agarrado a mim e eu toda vez de joelhos berrando pra você sair e enfiando as unhas, mas estamos aqui novamente mesmo quando te peço pra sair estamos eu e você no extremo da inquietude loucas pra despejar nosso desespero em mais uma linha e outra e outra.
29.10.09
sobre janelas fechadas
você poderia viver aqui comigo, não, não, você tem que viver aqui comigo. mesmo que seja difícil, mesmo que por vezes seja ruim porque é urbano demais e por não termos grana, mas nosso coração fez um trato: precisamos de tato. precisamos de mãos, precisamos de nós. e gritamos por mais mais mais mais mais. mais amor por favor simples não? eu li no orelhão da rua ontem, mais amor por favor simples, não? não? acendi o cigarro com o teu isqueiro e você se deixou aqui, né? sei que foi proposital. o shampoo aberto, o lençol amassado, o copo num canto, as cinzas que caíram no chão porque nossas pernas bateram sem querer no cinzeiro. me diz que foi proposital a revista aberta do lado da cama, o ingresso do cinema na geladeira, as latinhas esparramadas. arrumei a casa hoje e coloquei eucalipto em tudo, pra ver se você sente daí, aliás, não por isso, mas é que você pode chegar aqui e eu não queria estar despreparada, o despreparo do amor já mata tanto que eu não quero que voce chegue e não se sinta bem aqui ao respirar. respirar, queria lembrar como é isso. olhei pro reflexo da janela no ônibus ontem e meu peito pulava, então olhei pro chão, olhei pro lado, sentada, sozinha, raspando os dentes e o peito pulando fortíssimo. tá, mas não é isso, eu ia dizendo que arrumei a casa e por uns dois segundos me pareceu que aquela solidão tinha voltado e que você nunca tinha passado por aqui, daí a parede veio me dizer que você esteve aqui e disse que sem você sou treva e silêncio e que temos que viver o efêmero então percebi, no meio da ansiedade louca, que você é o meu não-efêmero, minha certeza de que você não passa, não vai passar e você foi me dizendo na despedida palavras do meu pai que te li e não vou te esquecer num canto qualquer e vou guardar por mais que isso faça da minha sanidade o ridículo e me faça cogitar morar aí, dar um jeito, sei lá, qualquer jeito, levaria a camiseta dos beatles e deitaríamos, como fizemos aqui, olhando o céu e tentando definir a cor, laranjado roxo rosa azul escuro noite sem estrela mas uma cor bonita e nos ouviríamos dizendo que finalmente calma e um abraço, roupa nenhuma, abraço apertado e o gosto bom do ar que sai do teu corpo e quase dormindo, quase dormindo e boa noite, amor. e beijo nos olhos pra cicatrizá-los. a gente acorda e senta ali no barzinho da alameda, coloco as pernas em cima de você, saímos pra fumar e conversamos sobre como gostamos dos nossos sorrisos e vou te dizer que te faço sangrar menos, que me rasgo, que esqueço de cuidar de mim pra te zelar. vamos tentar fazer coisas piegas com a fumaça dos cigarros como escrever um fragmento de algum autor que gostamos ou desenhar um coração e vamos falar sobre o nosso sexo foda e de repente a gente se olha e não diz mais nada. não precisamos dizer mais nada. precisamos de nós. precisamos ter pesadelos e acordar no meio da noite e ver que existe o tato, o braço por cima da cintura pra dormir, segurando a camiseta do outro lado. precisamos responder que por você sim quando nas despedidas surge a pergunta de sempre ' vai sobreviver? ' precisamos ter forças embora a fraqueza e o sentimento absurdo nos façam confessar, de perto: não quero sem você, não quero longe. é aqui que você vai ficar bem, aqui comigo, você tem que viver aqui comigo, eu raspando os dentes, eu despreparada, o cheiro de eucalipto, a comida faltando, os cigarros acabando... o choro fez barulho demais, mas não foi por isso que empurrei as janelas com rapidez ao chegar em casa, eu empurrei, rápido, num ato sufocante e desesperador, pro teu cheiro não sair daqui, pra você não sair de mim. o barulho do trânsito corroendo os ouvidos e fazendo minha cabeça doer e implorar pros carros pararem, pra cidade parar, como a gente disse que queria fazer com o relógio pra ele não dar quatro da tarde, mas faltavam trinta minutos, depois quinze, depois cinco, depois eu subia as escadas rolantes e a dor de cabeça começando porque eu não sei continuar, eu não quero fazer parte disso, eu não quero que a cidade me engula, me enfie num frasco e faça o que quiser de mim. eu sou sua, não sou de são paulo. não sou da angélica, não sou da augusta, nao sou da consolação. eu cansei de perder dias, eu vinha tendo tantos dias perdidos, eu vinha me perdendo, sabe? eu vinha desejando remédios como ninguém, eu vinha, eu vinha, mas não chegava. eu te amo. e não há nada agora a nao ser eu te amando muito, muito, muito.
19.10.09
percebo toda manhã que os mesmos sentimentos diários-excessivos-confortáveis também me destroem porque logo ao acordar esparramo as mãos pro lado da cama procurando, procurando, procurando...
15.10.09
o amor
(...)
me faz não ter mais vergonha dos meus pés e das unhas vermelhas que só tem metade do esmalte. faz eu, às vezes, me achar bonita com fones de ouvido e achar que fumo com um certo charme. faz eu dizer eu te amo com um poema do bukowski e receber essas palavras de volta num bar da rua augusta. tem um efeito mais forte que lsd, maconha, álcool ou cigarros em demasia. deixa o céu de são paulo cor-de-rosa ou azul. deixa minhas coxas com veias marcadíssimas. cria um buraco fundo fundo fundo no estômago. enfia, corta, arranha, massacra, esmurra, aperta, fode, fode de novo, fode mais uma vez e daí, do nada, um sorriso. produz dancinhas involuntárias no meio da rua. traz uma junção de estados confortável - rio de janeiro e são paulo e paraná combinam. faz a gente se sentir estranhamente em casa. faz usar palavras fortes sem arrependimento ou hesitação. tira as forças de respirar, deixando espaço para a respiração-incompleta. arde os olhos. sente necessidade de pele, de palavra, de mãos entrelaçando ou soltas nos bolsos uma da outra. tira toda a grana da nossa carteira e gasta em boteco: um esquecimento-temporário-frustrado, uma distração, uma euforia, um êxtase, uma divisão, uma ocupação: um copo na direita e um cigarro na esquerda - pra ter algo pra segurar nos porenquantos. faz ter vontade de viver só pra outra continuar vivendo também - tira o ego, junta as almas. tragamos forte, falamos forte, sentimos forte, andamos forte, piscamos forte, escrevemos forte, vivemos forte. inquieta o corpo, embaralha embaralha embaralha cai doa chora grita dói cava fundo fundo fundo. amassa tira puxa rasga as roupas e o coração. rouba um beijo embaixo de um semáforo ou numa cafeteria. cheira sopra acalma enlouquece. faz do suicídio secundário. adoece, dá remédio, faz passar. é perigoso, turbulência, terremoto. é poesia, livro, chopp. sexo ódio urgência guardanapo rabiscado. faz escrever na parede. desmede as compulsões e as pulsões.
ah, o amor, o amor me tirou tudo, tudo e apostou comigo. te tiro tudo e te dou vida em troca, pode ser? pode, não pode, pode, claro que pode, tanto faz, a escolha é tua, não minha. o amor é um diabo que não compra alma, rouba e avisa, rouba duas e avisa, pronto, colei, grudei.
o amor full of pain, full of sins, full of life.
o amor é o melhor livro que já li.
4.10.09
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